CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA MODERNA À SIMBOLOGIA (cont.)
JUNG E O DIVINO
Se nós nos colocamos dentro da nossa esquemática histórico-social, cujas bases morais, sobretudo no que se refere ao fisiológico, põem-lhe a dúvida ou a pecha de indecente, parece-nos, então, que o pensamento freudiano seria mais justo, pois, neste caso, o nosso espírito usaria uma linguagem simbólica, coagido pela censura do super-ego, que é social, e expressar-se-ia por semelhanças, por não poder dirigir-se diretamente ao simbolizado. Mas outra é a esquemática moral dos povos de outras culturas, que não emprestavam às partes pudendas do corpo humano nenhum desvalor. Desta forma; aproveitando os fatos da sua experiência, para com eles simbolizar o que se referia à divindade, não o faziam por despudor, mas, ao contrário, numa referência respeitosa, pois, na cultura grega, como na egípcia, na hindu, etc., as partes do corpo, como as funções fisiológicas, não eram desvalorizadas, chegando algumas vezes a ser hipervalorizadas. A interpretação de Freud está dentro da esquemática judaico-cristã, enquanto a de Jung busca fundar-se numa posição além dos limites que nós traçamos no ocidente e, por isso, mais profunda e mais respeitosa no tocante à intencionalidade dos mitos religiosos, sobre os quais, nós, fundados na esquemática judaico-cristã, pusemos a marca caluniosa de uma dúvida.
Comentando o livro de Jung, que nos revela um Deus, atuando como criador e destruidor, comenta ele : "Quem é esse Deus? Uma ideia que se impôs à humanidade em todas as religiões do mundo, em todas as épocas, e volve sempre em forma análoga: um poder do além que faz em nós o que quer, e que da mesma forma cria como destrói, uma imagem do que há de necessário e inevitável na vida. Debaixo do ponto de vista psicológico, a imagem de Deus é um complexo de representações de natureza arquetípica; tem que ser considerada, portanto, como representante de certa quantidade de energia "libido", que se apresenta projetada."
Naturalmente que Jung apenas quer afirmar uma interpretação psicológica e, como ele mesmo o diz, não uma visão metafísica. "Deus" é um arquétipo coletivo, como ele o chama. Não só surge em todas as formas superiores de religião, como até espontaneamente nos sonhos individuais. Definindo o arquétipo, diz Jung que é uma estrutura psíquica, inconsciente em si, mas que possui realidade, independentemente da atitude da consciência.
É uma existência anímica, que, como tal, não deve confundir-se com o conceito de um Deus metafísico. Em suma, a existência do arquétipo, para Jung, não afirma um Deus nem o nega. Essas cautelas são bem justas, pois ele é um psicólogo e não um metafísico, e a ideia de Deus, estudada psicologicamente, exige providências muito diferentes de as de quem a estude metafisicamente.
Neste momento, e nesta hora, nos interessa examinar esse ponto, que é o do arquétipo Deus. Posteriormente, nas análises que faremos de diversos símbolos, empreenderemos um estudo mais amplo desse arquétipo, cuja fundamentalidade psicológica é evidente, mas que uma análise da simbólica nos permite encontrar as raízes mais profundas do seu significado.
Prosseguindo nas suas análises, Jung diz : parece certamente que a imago paterna foi o fator configurados das principais religiões existentes — em religiões anteriores também a imago materna — e o que condiciona os atributos da divindade. Éster são a omnipotência, o paterno terrível e violento ("Antigo Testamento") e o paterno amante ("Novo Testamento"). Em certas representações pagãs da divindade destaca-se, com forte relevo, o materno, e ademais apresenta-se sumamente desenvolvido o animal, o teriomórfico." (Op. cit. pág. 81).
Tomás de Aquino, como todos os escolásticos, chama constantemente a atenção de que nós nos referimos à divindade por meio de conceitos que constituem a nossa esquemática. Deus é sempre compreendido em todos os tempos, como bem nos mostrou Schmidt no estudo comparado das religiões, como o sumo poder, fonte, raiz e sustentáculo de todas as perfeições.
É natural, portanto, que não possuindo um conhecimento imediato de Deus, tenhamos de nos referir a ele através da nossa esquemática, atribuindo-lhe as perfeições conhecidas, mas num grau superior ao adquirido através da nossa experiência.
O ser humano, como pai e mãe, é da nossa experiência e como estes exercem poder, soberania, amparo, amor, etc., aproveitamos os conteúdos desses esquemas para com eles referirmo-nos ao poder supremo, dadivoso, enérgico e bondoso de Deus, servindo-nos deles como analogantes das perfeições que a divindade os possuirá em grau eminentíssimo.
Deus não é apenas a projeção do pai, como uma análise simbólica superficial, apenas captando o secundário, poderia nos levar a compreender. Deus é um arquétipo que nós simbolizamos pelo pai ou pela mãe, pelas analogias que estes apresentam quanto às perfeições da divindade.
A justificação desse conteúdo cabe à Teologia, cujo objeto principal são as coisas divinas. Não cabe ao psicólogo, neste ponto, a não ser que ultrapasse os limites da própria psicologia, dar um conteúdo meramente psicológico ao que só metafisicamente podemos examinar e discutir. Razão tem, pois, Jung quando afirma que a imago paterna foi o fator configurados (neste caso, simbólico) do arquétipo divino, e a cautela do seu parece justifica-se, porque ele reconhece que, no campo da psicologia, não se pode resolver um problema que o ultrapassa.
E é ele que o diz : (Pág. 86) "A figura divina é antes de tudo uma imagem psíquica, um complexo de representações de natureza arquetípica, que a fé identifica com o ente metafísico. A ciência não tem competência para julgar essa acepção. Pelo contrário, deve tratar de explicá-la sem recorrer a tal hipótese."
E Jung o compreende assim, quando à pág. 114 diz "Sem dúvida a regressão religiosa serve-se da imago dos pais, mas só a modo de símbolo, quer dizer, reveste o arquétipo com a imago dos pais, tornando patente a energia do mesmo com as representações sensíveis do fogo, da luz, do calor, da fecundidade, da força, procriadora, etc. Na mística, o divino contemplado interiormente é amiúde só o sol, ou luz, e pouco ou quase nada personificado."